O nome do pai

Foi quando entendi pela primeira vez esse conceito da psicanalise lacaniana é que escutei uma resposta para aquilo a que estive buscando por muito tempo. Sendo precisamente o “muito” do tempo que foi preciso e precioso no seu alcance. Analisando aos poucos aquelas duas funções semelhantes da imago paterna e materna para ambos os sexos, incutindo tão logo a dificuldades típicas e diferenciadas para o menino e para a menina, mas não é de certo o que eu gostaria de falar aqui. E sim de Ser e Tempo, isso da Filosofia de  Heidegger a que Lacan pareceu dar sentido no desenvolvimento psíquico ao cunhar aquele conceito que refere-se imediatamente a ligação do sobrenome herdado com a linhagem da genealogia familiar, mas que concebido em seu sentido simbólico e análogo a gênese do psiquismo corresponde justamente a noção de que ser e tempo estão intimamente ligados, tanto quanto pensamento e profundidade no amalgama denso de uma relação. A minha busca, e a frequente alusão que fazemos a essa temática é desde o inicio a questão de como é possível que nos dia de hoje, e talvez quase sempre, a relação entre sentimentos/emoções e pensamentos/linguagem permaneça tão antitética, mas atualmente com a prevalência do polo dos sentimentos e emoções, dito de modo simples, o polo feminino. Quando a resposta a isso, é quase que friamente racional, embora em menor escala. Declarando quase que tautologicamente que aquilo que sabemos na prática, pai e mãe não se comunicam. A maioria dos casos de alienação parental, e, ao que parece, são muitos, revelam algo nesse sentido. Não posso deixar de sublinhar o tema das mães solteiras e divorciadas, que por grande parte do histórico, recebiam indiscutivelmente a guarda dos filhos, mas esse é um tema que ainda estou por investigar mais a fundo. Cito esta questão mas para elucidar o panorama, simbolicamente, deste tema que, como não pode deixar de ser, também tem raízes culturais. Do ponto de vista psíquico, isto quer dizer que, a imago materna recebe direitos absolutos, o polo das emoções e sentimentos são culturalmente muito mais privilegiados que o do pensamento e da linguagem. Isso se traduz opostamente favorável a figura do pai-palhaço, a necessidade  de vê-lo humilhado através de qualificações banalizantes que vão desde  humor até a forma de introjetá-la perversamente como modelo, a isso Freud se dirigia com o “fantasma do bate-se numa criança” referindo-se a quando a figura paterna era desqualificada na sociedade de sua época. É difícil descrever toda a complexidade da relação de como a evolução dos fatores culturais que ficam emparelhadas nesse processo, como por exemplo mudança do papel da mulher que se inicia com a luta pelos direitos trabalhistas e legais, e que vincula-se de modo confuso ao feminismo, e, por outro lado, a associação da imagem masculina em seus vários âmbitos de maneira sempre negativa ou nula. No reflexo do psiquismo podemos concluir um movimento de liberação no fluxo das energias em direção ao patamar mais direto, emocional e sentimental, mas de outro lado, a crescente perda da possibilidade de sublimação, elaboração, de dessexualização desses impulsos. Isso quer dizer, do ponto de vista do desenvolvimento psicossexual, que mesmo quando o pai entra na relação entre mãe-criança e esta relação assume ou deveria assumir uma configuração triangular, a frustração do desejo (o famoso complexo de castração) não ocorre satisfatoriamente e culmina na morte simbólica do pai. Em geral na Psicanalise, estuda-se muito o Édipo e a Castração do ponto de vista do menino, mas mesmo no caso da menina a formulação daquilo que chamamos de castração, ou a frustração do desejo sexual, tem um papel importante no psiquismo, em cada sexo com suas dificuldades e facilidades inerentes. Mas o que queria discutir aqui tem mais importância quando entendemos o significado que o simbolismo paterno trás para a vida psíquica e o que parece que vamos perdendo sem nos dar conta. É nesta dificuldade tão natural da vida que a psique humana complexifica suas relações com mundo, através daquilo que poderíamos chamar de “resposta criativa”. Também em geral, a imago do pai é referida apenas em associação a frustração do desejo e a introjeção das “leis morais”, mas o mais importante é que esse desejo frustrado permite o desfecho identificação com esta imago do pai ou da mãe, e com isso a preservação deste mesmo desejo deslocado de seu objeto primordial, em sua dupla orientação originada do imago da mãe, o seio/útero, e, dito na linguagem dos sentimentos, o amor em seu nível mais fundamental. O amor como um sentimento profundo, como “paixões espiritualizadas” nos dizeres de Nietzsche, nasce da profundidade proporcionada por essa relação. Que vai desde o nascimento, até uma identificação e/ou diferenciação na relação triangular entre pai, mãe e criança. Lacan soube associar perfeitamente em seu conceito-expressão O nome do pai imbuindo de uma carga histórica familiar dado a relevância que o sobrenome paterno tinha naquela época e ao mesmo tempo o sentido da própria densidade temporal que este nome imbui na historia do sujeito com ele mesmo, em seu ser. O mesmo Lacan ilustrou bem e ironicamente a questão da presença exclusiva ou dominante da imago materna em relação a educação familiar e a propensão as psicoses na contemporaneidade, quando afirmou que muitas vezes é como se o toco(o falo) fosse a unica coisa que impedisse o bebê de ser engolido pela boca do jacaré (a volta ao útero), ainda consigo situar  essa questão como a típica questão pós-moderna da prevalência do feminino, das emoções e sentimentos, e a escassez de categorias como pensamento e racionalidade. Isso, em verdade, quer dizer: ausência de sublimação, pobreza na esfera existencial. O mais comum é vermos tendencias reflexivas de elaborações linguísticas serem rechaçadas como vinda de uma origem diferente daquelas emotivas e sentimentais, mas a origem é a mesma. De modo que, mesmo em indivíduos ditos extremamente racionais seja possível encontrar uma libido ativa e presente, as vezes muito mais que naqueles que se auto-referem como indivíduos apaixonados  e intensos, tudo depende de como se dá a elaboração das questões internas com a repressão e recalque subjacentes e inerentes ao conflito entre consciente e inconsciente. Sendo que intensidade emotiva e/ou sexual muitas vezes quer dizer apenas dificuldade ou incapacidade de frustrar-se.

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