Dissonâncias entre os lados da cama

 
Vi teus olhos fixos em mim, 
E me aproximei evitando a fixidez, desvaecendo aos poucos,
Desequilibrando a prova de onde estava, pulando macio,
Esgueirando e sumindo até te encontrar, já dentro de ti. 
 
Meu espírito habita tua carne e silenciosamente te toco por dentro,
onde teus dedos não alcançam. Sou lascivo? Brincando de dar prazer,
quando finalmente teu olhar se acalma. Como que numa gentil
tortura, para ver até onde podes.
 
Existe algo assim que persiste no pensamento,
que persiste… persiste… persiste…
 
E quando a paciência está quase se acabando, mordo teu dorso
Como um leão, te pegando de quatro e te comendo
Como se fosse a ultima coisa que fizesse na vida.
 
Dois corpos se envolvem e se fundem,
Compelidos através do esforço supremo com que escalam,
um no outro, o insuperável destino desencantado do prazer.
Quebrar-nos, até que o folego seja a ultima coisa a preservar,
Pudor da respiração,
e a união se extingua no descanso dos corpos trêmulos,
 Embebidos de suor, a autentica ausência,
Da ocupação solitária de voltar a si.
 
Ao fim, não sei no que posso crer,
Creio talvez esperar tua mão sobre meu peito,
Deixando escorrer um pouco da alma morna,
No espelho do meu ser, reavivando os deuses de um eu crédulo,
Tão clara é a água do sentimento, e nada mais,
 
Resta um vestígio, um delírio pungente do proto-estado,
Titubeantes de ar, excessivos em respirar,
Amor —
Me chega como se lembrasse, e não como se pudesse,
Honesto na confusão de querer,
E certo de que caçaria até os confins da morte,
Se fugisse para tão longe da vida que fosse impossível,
Voltar a senti-lo.
 
Sim, há um medo inocente de que tudo se perca,
Confirmando nas sombras que as dobras nos lençóis projetam,
A presença latente daqueles deuses, 
 
Através da porta dos sentidos seu corpo tocou ressonante,
O meu ser disperso, seduzido a não mais perder o rumo,
Como se o sol estivesse nascendo depois do longo inverno chuvoso,
Atento a cada forma, cada detalhe, cada toque,
O calor redentor no seu pulso suave,
Caindo como a folha num rio de correnteza,
Me fazendo parecer que ia esbravejar antes de ser,
Que ia findar antes de haver,
O ruído do mundo é déspota coroado pelos amantes,
Deitei-me sobre seu leito,
E quis toda tirania fantasiosa do encanto,
Ter seus cabelos entre meus dedos,
Seus cheiros entre meus pensamentos,
Seu gosto entre as minhas palavras,
 
Por um tempo me deixo envolver pela calma dessas horas,
Quero te ver, e me viro para te encontrar sonhando,
Te abraço e ouço o som molhado da tua boca desperta dizer,
Que houve este movimento entre nós,
Enquanto me contas, acalento teu rosto com a ponta dos dedos
Deslizando sobre as tuas feições,
E entendo perfeitamente quando nossos olhos se encontram,
Que é diferente em cada um, que veio e agora recomeça,
Conquanto estejamos renovados para o que vier,
Mais um fio, um estranho fio dourado e denso,
Costurando a colcha de nossos retalhos,
Feita da matéria viva do sentimento que nos une,
Diferente no eu e tu, que usamos para mostrar de onde viemos,
E igualmente inexprimível no amor, para onde vamos.

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