Todas as nuances do entardecer – Segunda parte

Então,

A porta se fechou,

Apenas a luz da cozinha acesa,

A casa estava escura,

A porta se fechou, e atrás dela veio aquele suspiro,

Que sempre nos fazia submergir no escuro do lugar, não importa o quão claro estivesse,

E sempre me levaria a distância de alguma ironia do tipo:

“é, finalmente a dor na coluna puxa pelo crânio a coroazinha de princesa”,

O que, inevitavelmente, levaria ao passo seguinte,

Ela sabia que eu havia pintado um alvo nas suas costas,

Já havia se tornado um hábito, impossível não ter notado,

Ou, ao menos, era assim que eu pensava,

“já tirei a roupa do varal”,

Como que para dizer que pelo menos ela, sabia que havia perdido a coroa,

Era verdade! Até onde, sugeria o ritual de invocação de nossos demônios,

“Escuta…”, disse enquanto assistia um vestígio de tarde rubra ardendo em seus pés, que cruzavam de um lado para o outro a sala,

“Agente não pode mais continuar assim, você sabe disso!”, ela começou,

“… você não precisa se segurar, não precisamos fingir que esse naufrágio pegou a gente desprevenido… sabe, começar insultando nossas diferenças, para começar a chamar atenção de alguma compaixão e piedade de nossas igualdades…”

Senti seus olhos, pairando no silêncio de sua respiração, “não é que esteja fazendo pouco caso, é que a gente passou tanto tempo montando e tateando e sentindo, sofrendo cada osso da estrutura interna dessa nossa casa que, nem precisamos mais acender a luz”

Parece que só então ela percebeu que quase não era possível ver nada, mas estávamos lá, nus, e sem luz alguma víamos tudo ao redor e a nós mesmos, ali, um frente ao outro,

“Você tem razão…” ela disse, voltando a respirar “…sabia, acho que só estive evitando… atrasando a hora de… você sabe… a hora”

“sei sim, atrasei também… talvez, sempre tenha algo assim…”

Escutei seus passos até o sofá, o rangido das almofadas se contorcendo com seu peso,

Sentei ao lado dela,

E segurei sua mão fria e suave,

Entrelaçamos os dedos,

Entrelaçamos nossas lágrimas, beijamos nossa intimidade,

“Quanto tempo faz, que a gente não se sentia assim…”,

“Eu acho que a gente sempre se sentiu assim… mas é difícil, não ter o que dizer… ter a obrigação de ter que dizer alguma coisa, você sabe… é tanto que se planeja e se calcula… saber o que o outro sente… é uma coisa louca, dentro de um vasto campo de méritos… mesmo isso que estou dizendo agora, você já sabia com seu sentimento… e eu sei, por que senti em você…”,

“O conto do flautista, que não recebendo o que lhe era devido pelos ratos, levou consigo as crianças… as crianças… e ao final, parece que foram os ratos que fizeram a festa…” ela relembrou uma velha conversa,

“Como se paga ao Flautista? Como não cair no esquecimento do gozo? Sabemos perdurar nisso? Abraçar o nosso destino! Isso não soube fazer da primeira vez, por isso sempre nos arrastamos aqui de volta”.

Sem que percebamos ficou escuro lá fora, a noite desceu ao redor, e continuamos isolados na nossa escuridão de não ver, até que chegou a hora em que ela também viu que devíamos nos ver de novo.

Luz acesa, parecíamos ter envelhecido uns anos ali, mas parecíamos tão límpidos e honestos nessa velhice, não o disse, e ela adivinhou do mesmo modo que eu, sempre se assustar, vimos tudo aquilo que foi dito em nós,

Começou a chover lá fora,

Vimos clarões ao redor, ouvimos o rastro dos trovões abrindo bruscamente a janela num golpe de vento e gotas, e participamos disso,

Estávamos em tudo, ela sentiu levada por esse sentimento a estar ali na frente da janela, arrepiada e molhada, a boca aberta deliciando e bebendo dos pingos da chuva, os presentes de algo particularmente estranho que havia nascido naquele momento,

Não cedi a vontade intrusa de sentir que ela era minha heroína, que mulher incrível! Não nos éramos heróis, nós éramos heróis desse estranho épico pós-contemporâneo dos anti-heróis,

E estive lá ao lado dela, e além, cruzei a janela, e voltei-me novamente para ela ajoelhada no chão, estendendo a mão da nossa festa,

Que ninguém havia começado, e ninguém iria terminar,

Somos os deuses, sem fim sem começo,

Meu olho relampejou vibrando meu corpo inteiro, e eu subi, e me tornei o céu, enquanto ela espalhou-se pela terra, na lama,

Tornando ela própria Gaia, abraçados ainda pelo trovão que ecoou pelo horizonte nossa vontade,

Tudo se perdeu- e refundou-se nisso, no mundo inteiro,

Bebemos o temporal…

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