Solidão

Faz tempo não me sentia tão sozinho, em tudo contido um pouco de ida e um pouco de volta em cada elemento. Deslocado do sentimento do mundo. Talvez ainda haja mais silenciar, mais um voto de silencio. Não posso dizer nem de longe que tudo tenha se passado num piscar de olhos, mas agora acordo como dum sonho intenso e tudo passa como pestanejar. Coração de barco, sem porto. Imensa é a tristeza noite a fora. Aqui, transbordo de estrelas. Eu mesmo contido de tantos faróis e, contudo, inconsolável do sistemas da vida e suas órbitas no vácuo, sem o amigo. Posso ter aqui, uma garrafa da mais doce alegria. Mas é estranho como, mesmo uma pequena dose parece inútil. Transbordar, sempre um inútil desperdício. Em verdade, cheio da solidão na solidão, de abandono e isolamento. Fala sempre turva, de viver entre indecifráveis enigmas. A gente sempre tem uma receita homeopática de como ir, ou de onde tentar, até que por via de regra exista o inexistente. Se me perguntam, contudo, se houve uma grande mudança, talvez olhe ao redor possuído de alguma esperança, para depois desfalecer no dar conta que não, apenas o tempo passou. Alguma vitória sobre si mesmo conta sempre mais contra o outro em geral. E já não importa mais às sementes que plantei, quando florescerem estarei longe. Tenho boas mãos para plantar, e não para colher. Cansei de esperar, em vão que seja diferente. Florescerão.
Solidão, a terra natal no suor que transpiro. Levo, como um caracol, o ouvir desta concha espiral no âmago do ouvido. Nunca precisei procurá-la, esteve aqui sempre em excesso. Por mais que isso soe melancólico, alegre além de triste. Saberão, ver a alegria oculta além do obvio? Penso que não.
 
Sem um nome qualquer, caminho pelas ruas.
Se me chamam, não ouço.
A mim mesmo, não me chamo.
Tenho por vista o que é espelho.
Mas me cansa esperar por inteiro,
Tenho ainda nos bolsos, e escondido entre a sola e a meia,
Fragmentos e trocados,
Pelo que se pode verbalizar e temporalizar sem grandes espantos.
Faço como o povo, a andar por aí chacoalhando umas poucas misérias,
Mais de que radicais, busco sentidos. Quaisquer.
Ante a toda revolução, retorno aos fundamentos.
Tudo que me pertence agora é vazio.
Saqueado como pé de fruta que cresce para além dos muros,
E assim tem sido por tempo demais.
Tenho lá alguns papeis a carteira,
E uso livros para guardar os documentos de identidade,
Para não ser levado por qualquer mudança de ares.
Não tenho mais que meus ossos,
E uma pele frouxa no canto da boca,
Então vale este cuidado com as ventanias,
Poderia, se viesse,
Fazer-me um balão,
Para qualquer festa,
Qualquer estouro.
 
Sem uma palavra sequer, ando por essas ruas.
Meia-noite que me falha o ser da alma.
Sombras do mundo em mim condensam-se na bílis negra,
Da melancolia.
Há tempo não via essa moça antiga,
Vestida do branco das horas mais pueris,
Que em outras épocas vivia sempre por aqui.
Se bem que, acho, sempre esteve.
Escondida sobre o fundo falso da vida,
Subitamente presente,
Em cada vontade de afastamento,
Sob a luva de ilusionista, sob o chapéu de mágico.
 
Já andava pensando,
Sobre mágicos e ilusionistas,
E estou a beira de concluir que não era fundo-falso,
Mas o fundo de verdade,
Duma brincadeira, talvez?
O quanto pode se ter o risco de queimar,
Com o fogo de brincar a sério.
Que me caia mal a mascara do palhaço,
Isso é falso,
Mas cai mesmo assim, e lá estão as lágrimas,
E não sem o nervoso do susto,
Creio já ter acumulado um tanto de fadiga,
Mesmo no coração secreto da vida,
Por de trás da fadiga que sempre chega, à meia-noite das palavras,
De buscar o outro qual ladrão no vestíbulo do mesmo que se veste,
Conquanto o mesmo rosto esteja sempre acusado,
De que antes de hoje o espelho esteve aí,
Sombreamento nos contornos,
Que chega a mostrar que há algo além, algo de profundo,
Mas o que há de profundo, zomba que tento ser estranho,
Cruel rebeldia de minha honestidade, esta é profunda,
Contudo, abismal é a melancolia,
Difícil, pois, crer no não que esteja marcado,
Tenho estas palavras,
Procuro, o sentido.
 
O sentido…
 
Como se ensina há um velho trem, algo além de seus trilhos?
Paisagem do mundo, é fantasia,
Conhece-se o bastante para as festas,
Contudo, que venha a algum dia a se tornar realidade,
Para isso, a lanterna no cínico já ficou acesa,
Procura-se de dia, e não de noite,
O que é justo.
 
O sentido justo…
 
Quem conhece os significados das coisas, como a um labirinto,
Conhece também, mais de um Minotauro,
E tem entre suas musas, mais Ariadnes do que precisaria,
Desprezar que tudo tenha uma volta,
Eis uma ingenuidade que tenho cultivado,
Com mais amor que as sabedorias,
Há uma santa idiotice nisso,
Por isso, desprezar aos idiotas e a vulgaridade de suas idiotices,
Ter em mente essa prece, contra as quimeras das almas vazias.
E esse Terço das marcas deixadas, como lembrar as promessas,
Fazê-lo no silencio secreto que paira entre as vulgaridades de toda solidão,
Que nada me viu aqui, fumaça que predomina no abafado do quarto,
Que ela não tenha me visto, o ar que me falta aqui no peito escaço,
Sonho dum raio de luz que adentra a janela, e as partículas das poeiras das ânsias que se mostram em plena claridade do dia,
Vida escassa, e o tanto dos reinos que nos ignoram.
 
O sentido justo da vida…
 
Tenho algo, e se me convenci,
De despir a roupa dos pudores,
Não por faltarem as facas na goela,
O frio nas entranhas,
E a intimidade
Dalguma presença furtiva,
Que aquece, ainda que fátua,
Chama de resistência,
Chama de vela, solitária,
Falta-me o Sol dos dias,
Sem a conta das horas,
Mas as estrelas estão lá,
O brilho das lembranças,
E a Lua,
Cheia, cheia…
A clarear que ainda estou aqui,
Vagando perdido pelas ruas,
Melancólicas,
De minha cidade vazia.
Talvez,
Mais próximo as pontes,
Que levam a parte antiga.
Mas, de certo,
Longe das sementes,
De ver nascer o Sol de amanhã.
 
Cansado, serenamente cansado,
Serenidade, —
O que dispersa a noite densa,
No céu purpura desta hora,
Alguém viu ou ouviu?
Entre o martelo e a bigorna,
O aço ainda teso,
Do que foi cunhado?
Questão: era para haver alguém?
Adivinho, ouso,
Haverá quem ousa igual ou mais que isso?
Sou isso que ousa, e mira a ousadia como a um destino,
Sísifo e a pedra, pedra-sísifo e Sísifo-pedra,
Algo da desmesura de um louco,
Aparece como se fosse cego e surdo,
Do vasto desdobramento das vozes escoantes,
Dito como se reverberasse através dos anos,
Vindo do fogo cavernoso nesse coração,
Demasiado capaz das sombras,
E demasiada escuridão nesses pensamentos,
Ainda curioso e incansável das luzes do mundo,
Embora, por esse título de nobreza,
Tão só e triste, do ser em geral,
Enquanto tudo aqui, nasce e torna a vir a luz,
Na densidade de um fluxo corrente,
Palavra por palavra, a fala soa como que distorcida,
A vida que se veste, pelos tumultos,
Tropeço frequentemente nisso,
Do quanto me impulsiona o amor,
Pelos cheiros e sabores,
De chegar, vazado,
Nas longitudes de gotas translucidas,
Pela tímida superfície aquosa do olhar.
 
Escorrem…
 
Mas então, que ao acaso um perfume me chega,
Senti seu cheiro,
Seu corpo suave e tenro,
E ao mesmo tempo, ebúrneo,
Erguido da terra, até o alto de chegar a lamber o Sol,
Deixando meus sentidos confusos,
E o olhar brilha a lamina do encontro,
Doce que se enovela, duma trama de anseios,
Farejo isto, como se adivinhasse seu sabor pelo intenso,
Amanhece, e ela estava lá,
Por entre as arvores e os cantos dos pássaros,
Reverencia atravessada por um facho de luz,
Sentindo o mesmo calor do astro rei,
Como que vinda duma outra noite, e vestida nisso sem rigor,
Mas deixou que a visse, confirmando o pressentimento,
Deixando o coração contrariado de convalescente,
E o desejo sussurrante do um beijo.
 
Vela-me um desejo ardente,
Mas ainda creio nisso em que cri outro dia?
Há entre os dentes cadentes dos céus,
E os dentes ascendentes da terra,
Algo que esteve mastigando o tempo,
Como se devorasse a carne de minha substancia,
Quantas angústias, quantos túmulos,
Já não estão entre agora e a primeira vez,
Em que fiz aquela promessa inesquecível,
Incrivelmente agora,
Da melancolia a barbárie das percepções,
Sei o que perco e onde não quero ir, para me deixar levar.
Morrer de desencantamentos,
Matar de não encontrar,
Sei o absurdo, que não tenho bom senso,
Espero, descascando camadas e camadas de sentidos,
Superfície do ócio,
Até o ultimo adeus.
 
Últimos… (fico rastejando isso como a porra de um mendigo)
 
De vero,
Nada a dizer,
Tudo, ainda por fazer,
Tudo, neste esforço,
Re-(qualquer coisa),
De eclodir fora da casca,
Redesenhar
Redescobrir
Resinigficar
Poetizar no gesto,
De simbolizar a vida,
 
De vero, nada a dizer,
Como todo homem justo,
Mendigar sentido das coisas,
Vivenciar os punhais,
Sangrar o alvo da carne,
Cunhar a moeda de ser,
Sem escapatória,
E nada mais,
 
Despertar a divindade em todo lugar,
E de quando em quando,
Adentrar a noite dos deuses,
Perder-se na solidão,
De erguer-se mais uma vez,
 
Planar…
 
Encontrei essa Dona,
E não pude se não,
Provocá-la do tanto que me encantou,
De longe, afiado,
Meu jeito sem jeito,
De dar boas-vindas,
Tão rápido,
Cresceu, desde então,
Encontrando as asas do seu ser,
E voando para longe,
 
Sonhei, algum dia,
Encontrá-la,
Ser seu casaco 
ou edredom azul,
Encontrar seu rosto,
Além das escadarias castanhas de seus cabelos,
Um beijo que cai,
Suicidado de desejo,
Sem cair no seco,
Ficar molhado,
Um mergulho,
Sem medo,
De gozar dentro,
Do espirito,
De criar em comunhão.
 
Mais que isso não sei, minha própria vida é uma bagunça silenciosa. Arrumo-me por aí, sozinho, abrindo caminho a escrita. Acho-me e perco-me. Canso, reluto em desistir. Reluto em confiar. Reluto em relutar. Daqui a pouco, não sei. Fiquei seco, depois de escrever isso tudo. A quem quiser, saberá como me encontrar. 

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