Pelo campo aberto, indefeso da chuva

 
Faz algum tempo,
Tenho me pego indefeso nesse sentimento,
De tê-la aqui por perto,
Não apartado da coragem,
De ir, por exemplo, ao seu encontro,
É uma questão patética,
De simples pathos, tão somente paixão,
Esqueça o personagem da Disney,
Mas não o que tropeça,
Há este afastamento, tropego afastamento,
Essa hesitação em conciliar,
Pairado fronte ao acorde indecifrável de sua esfinge,
Esse olhar que isola e não defende os seus,
“Deixa ele aprender a brigar”,
Pensa-se assim, consigo mesmo,
Coisa paternal talvez,
Cruel, um tanto,
E é assim, indefeso, solitário, confuso,
Mas tão livre quanto possível,
Que me deixo estar para certos sentimentos,
Que de outro modo pareceriam sem cabimento,
Quando, cabimento,
É uma exigência mui forte,
De rearranjo das coisas desapegadas do todo,
Toda a política totalitária de tempos confusos,
Com isso, se aprende a cultivar ingenuidades escondidas,
Em porões úmidos,
Como, com tudo e apesar de tudo,
Estar apaixonado,
Isso é patético,
Quem sabe futurando uma revolução: o amor,
Mas dito assim, parece coisa simples,
Surgida claramente,
E não como seja, intuições, impressões, rudimentos,
Filosofar-poético,
Psicanalise sonhadora dos sonhos,
Saber seduzir o quer se quiser, e quase sempre,
Ter essa voz poética,
De silêncios e madrugadas,
Será que ela viria ver minhas olheiras?
Minha barba torta e a ternura perene deste tom?
Acinzentado, sofrido, solitário,
E, ainda, muito criança, apesar dos cabelos brancos,
Já a vejo dizer, que me amou por isso,
Numa estranha linguagem, diferente da minha,
Mas presente no mesmo dialeto,
Sei que vou sorrir,
Ainda mais do que estou sorrindo agora,
Adornando o umbigo da minha fantasia,
E ela terá paciência de me ensinar aquele riso perdido?
De ouro, ensolarado,
 
Desviei o olho para um canto,
E lá estava um de meus tantos medos,
A balbuciar algo do tipo: “isso é verdadeiramente patético”,
Mas tudo bem, nos entendemos a respeito do que importa,
 
Imagino seus medos, suas fúrias,
Suas tristezas, o que é difícil de dobrar,
Esquivando do tanto que é bela,
E há em mim este esteta narcisista que se prende as aparências,
Mas me solto disso,
Para ver a beleza além da beleza,
Na delicadeza dos detalhes,
Navegar nisso, quantas vidas seria preciso para ir além?
E na dureza com que as suas próprias mãos tolhem as palavras,
Percorrendo até a honestidade do sentido,
Até o sem pudor do desejo,
Outro algo em mim ama essa coragem,
E há coragem por aí, mesmo que venha furiosa,
E tenho por ela a mais profunda amizade,
Eu que desde cedo tive de arrumar um jeito,
De conviver com minhas próprias estribeiras,
Contra toda vontade de liberdade, 
 
O sempre-verde daquelas loucuras que você mais ama em si mesma,
E eu que quero tanto dar razão aos loucos,
Certo que como já disseram,
“Há um pouco de razão em toda loucura,
E um pouco de loucura em toda razão”,
Imagino remédios assim, e de nenhum outro tipo,
Além do que não somos mais donos,
De que obedientes de nossas paixões,
Caindo por todo canto como se chovesse,
Um tanto do atrevimento, e o viso dessa flor vermelha,
E tento delinear os contornos destas boas vindas,
Para tudo que for seu,
Na obrigação de uma luta porvir,
Mas, talvez seja melhor calar agora,
E não deixar que essa ânsia corra sua pressa,
Pela vida toda que se estende adiante,
 
Ademais, indefeso nisso,
Mais profeta e sonhador que tudo,
Muito embora, agora, já esteja mais próximo ao todo,
Pensando em como terminar esse poema,
Que já foi longe demais em sua brevidade,
E desejou por demais a sua boca.
 
Devagar, devagar,
Cobro a mim essa lentidão no espírito,
Amanhã, quando amanhecer,
O campo vai estar encharcado,
Mais molhado que cheio,
E muitas das folhas secas de ontem,
Vão estar a mostra,
Nas marcas do tanto que foi,
E mais vida vai brotar disso,
Mais, ainda mais,
Ficam as promessas na memória,
E temos que ir além,
Não ter piedade,
De que hajam, outros dias,
Outras manhãs ainda mais belas,
E noites ainda mais terríveis,
Do que essas.

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