Do carnaval às cinzas

O Carnaval está acabado,
Estamos mortos agora,
Nascidos que fomos
Para o que não fomos feitos,
Fazer vir-a-luz,
Vir-a-ser,
Dobrados nisso,
Até o pó dos ossos,
Cinzas, — espalhadas,
E o cintilante cão sem plumas,
Ficou sem nó,
A vagar dentro da treva;
 
Nosso silêncio é tudo,
Garças à beira,
Escarpadas penas,
E tempestuosa é a palavra, —
Cada ida,
Uma barcaça cruzando,
Sozinha,
Contra a correnteza,–
Sempre mais arriscado,
Esculpido que há,
Naufrágios,
Na pedra do rebento;
 
Além disso,
Máscaras boiando ao redor,
Sem “outros”,
Excessivamente o mesmo:
Cavar distâncias,
Farejar presenças,
Derramar a seiva
Na flor da carne,
Assustar o cão-vigília
das paredes
na casa abandonada;
 
Rente ao sangue que transborda,
Um excesso de navalha,
A pele da palavra,
Na alma,
Já ferida aberta,
Jorrando da fonte,
Entranhada,
Até a copa das bocas,
Entre as efervescências e o luar,
Corpo nu lançado,
À ressaca do reino febril.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s