Excertos da noite mais do que escura

Com tudo que é até afundar no desespero,
Procurar além da ordem abismal na angustia,
Percorrendo e encarnando a noite,
Quando não é mais possível ser inocente,
Oculto a sombra noturna,
Animais nocivos transfigurando medo,
Como um vazio de presas a mover-se,
E vagar pelos cantos escuros.
Ainda mais densos e tangíveis na penumbra,
Contudo ainda arde alguma coragem,
E é preciso ver que há olhos cheio de fome,
Na obra, alucinando miragens quiméricas,
Um anseio de mistura e ocultação
Na distorção de cada alvo,
Na composição da linguagem esquiva,
Vazando por todos os lados, suando pelos poros da tensão,
Para não ter que ver que tornou a si o lar de grande miséria,
Impeto de dissolução,
No mar lançado,
Do corpo exposto fazendo na espuma monstros e musas,
Cavando grandes rugas,
Abismos e desfiladeiros,
Entoar um canto sombrio que ecoa entre as paredes de rochas,
Enchendo até a borda,
Mas eis que,
Da vontade acumulada sobre as unhas e dentes,
Faz o atrito das nuvens do sem sentido ou forma,
E um trovão rasgou a escuridão,
Desnudando a dança das sombras,
Enquanto o passo do gigante é dado.
 
*Não sei dizer com muita precisão o quanto desse poema-confissão é acerto de contas com um período realmente difícil que passei em minha vida, e o quanto ele representa do esforço de lutar contra a própria loucura. Como alguns outros textos ou poemas, quando olho vejo uma pedra e sinto-me satisfeito de ver as marcas da tentativa de esculpi-la, é a superação, o esforço, e as marcas deixadas por isso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s