Amanhecer por entre as arvores

I.
 
Posso imaginar uma música assim,
Como no curso alegre de um amanhecer por entre as árvores,
Suavemente mórbida em algum lugar distante, dentro dela,
Como o ritmo lento de um coração em que há depositado muito arcaico que corre em seu sangue,
Algo deliciosamente calmo e decomposto,
A respiração subterrânea de um rio que sopra do sul,
Despudorado nos cabelos embaraçados,
Ainda por findar já findado, mas uma vaga lembrança do que um dia já foi,
Quando visto particularmente,
As folhas e os troncos secos espalhados pela terra,
Talvez mesmo as ruinas da velha casa, ou nem isso,
Algumas pedras sobrepostas,
Ou restos de onde outrora havia uma parede,
Que já a muito constitui outra faceta de outra paisagem,
Um tom envelhecido no mais longínquo de cada movimento,
E não muito mais do que isso, e, contudo, algo essencial a reger a harmonia,
Por onde se desdobram as raízes e se erguem os troncos mais espessos,
E próximo ainda a terra, desvirginando raras folhas,
Tingindo aqui e ali o novo colorido do verde recém-nascido, recém-chegado,
Suspirando plenitude de vida a cada inicio,
Ainda que escuro, que ainda escuro, perto de onde tudo faz e desfaz em um só,
Ainda fortemente atraído pelo longínquo e antigo,
E nascendo muito mais que do que amadurecendo,
As longas tentativas infrutíferas de todo gênio criador,
E a necessidade dessa permanência como a rotina que descreve a lei maior do dia a dia, de quanto mais perto do chão, mais perigos há, e mais fértil é.
O que nem de longe afeta a densidade da melodia, e é densa.
 
II.
 
E lá do alto vem os cantos dos pássaros, agudos e ininterruptos,
Aqui e ali lançando mão da prevalência de um sobre os outros,
Como a nuance das cores que se agitam e batalham na busca do olho pela forma,
Ou do ouvido pelo som,
Melodiando e transportando ao plano do espetáculo da aurora em todo fulgor,
Bruma áurea tingida pelo sol ainda sossegado,
Como um arrepio na pele, um choque de clareza,
Desatando a macies de toda superfície,
Misturando-se por vezes a um lençol branco
Que percorre em dobras todo o remanso das margens,
Um céu puro e alvo,
Aludindo guardar o azul silencioso e profundo,
Para além do qual nada mais há, apenas estrelas que brilham a noite,
Entre o verde alto e escuro, a branca neblina envolve a copa das arvores,
A veste transparente que frui entre a pele a alma,
Balançando com a mão quase imperceptível do vento,
O sol surge calmo e gentil,
Abrindo lentamente espaço,
Brilhando através do mosaico desvairado do farfalhar maciço,
Que esconde pequenos rumores e vozes,
Pingos de orvalho na superfície do açude de sonhos que também já acorda,
Seu dourado infinito resplandecendo cada vez mais,
Distinguindo os caminhos de galhos e caules que acompanha o ramo florido ou folhado de suas crias mais belas e perfumadas,
Desse ponto algo revela uma energia feroz e inesgotável,
Como se o sol a translucidas disposições entre pele, alma e vestido, na neblina,
Misturado a uma dança de esmeralda,
De juventude alegre e sonhos vindouros,
Pelo que já dia,
Nessa perspectiva,
As folhas já escurecem, lá no alto,
Assemelhando-se ao voo daqueles pássaros em bando,
No rastro do vento,
E as mechas de seus cabelos irradiam ainda mais quentes.

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