Solidificação

Precisamos do amigo, do amor, do outro, mas não dá para precisar ao ponto de sacrificar em si mesmo o amigo, o amor, o outro. Aqui talvez esteja a grande diferença entre empatia e compaixão, e o limite que tem de ser frequentemente confrontado, muito além das provas cobradas a si, e não mais que a si mesmo, é a partir destes riscos corridos para quase perder-se que as perspectivas, ou melhor, a alma se multiplica.

Mas tudo tem um limite, tudo possui um dentro e um fora, algo que diz mais respeito a sensibilidade de que a própria conjuntura da coisa. Mesmo a solidão que como um distanciamento de algo, também é aproximação de outro;

A solidão não é um refúgio, se o for, o é apenas por consequência, por condição feita a uma exigência, que se entenda solidão como um meio de vida que possui seus limites, suas áreas cinzentas e suas áreas translúcidas, antes e depois das quais, ainda não é ou já não é mais.

A questão posta: É possível ser independente até que ponto? Uma vez que a própria indicação dada através de suposição de que há um lugar e tempo no qual a dependência em relação a algo deixa de ser consumado, supõe se também que haja um ponto onde ainda seja. Talvez a resposta só seja dada, no limiar para além do qual o sol da juventude, da sensibilidade forte e fácil, se esfria, e os sinais de amadurecimento destacando-se, indicam sobretudo o nascimento de algo em si que não só não vem por acaso, mas que harmoniza-se com o todo, que está lá “apesar de”, “além de”, e afinal, que tenha surgido dentro de si um gosto sereno por algo que aparece às vezes diante do espelho.

Assim, é que a distância começa a ser o mais importante auxilio para que seja possível, antes de tudo, “ser” desta forma, e que continue a sê-lo, e ainda mais que isso.

Em certo ponto, o barulho, a confusão entre jogos de linguagem, a passividade no quão sedutor pode ser um sentido, um reverso, um perverso, e a busca frenética por usufruir mais uma vez das particularidades dessas pequenas tensões, este típico gozo do vulgo, que fura os próprios ouvidos, mutilação, confusão que nada tem haver com a contraditória escolha que vai estreitando com o tempo, com o enorme movimento que acontece por de trás do gosto e deste estreitamento para que nele a necessidade crie raízes que alavancam o espirito acima da terra. Tudo aquilo que se torna apenas o que projeta, na tensão gerada pela falta que reproduz mentalmente o estado de prazer anterior, apenas aumenta a força na medida em que reduz o potencial, diante disto, aquele questionamento não fala, pois a pergunta é feita de olhos fechados para fora, e abertos para dentro, em verdade, quando estão fechados os próprios órgãos da consciência, que estão acostumados a manejar neste mundo, mas então, sem isto, há ainda algo? Olhos, ouvidos, mãos, neste sentido, há um lugar em si indócil a este mundo, quero dizer, a este outro?

É neste “distante da vista” que as coisas se assentam, mais ou menos, até o ponto em que o silêncio seja o fundo no qual a necessidade se faça plena, o fundo no qual o criador fala e não as vozes roucas da repetição. E muito longe de onde as crias se aglomeram e se mantém mutualmente: a formulação vem em ondas cada vez mais fortes: disto é preferível se afastar, disto é preciso se afastar, até que finalmente, simplesmente se afasta. Há endurecimento, há transformação, e neste novo elemento, um novo ponto de fusão, maleabilidade, solidificação – e um modo bem diverso de se dizer: “solidão”.

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