Empatia na solidão

De dia como de noite, descia as escadas. Descia, até que chegasse ao térreo e olhasse ao redor a procura de algo que nunca estava lá, mas durante um sonho noite passada, vi das enormes janelas que davam para a rua meu vizinho, dentro do carro. De onde eu estava era possível ver claramente sua garagem, e lá estava ele dentro do carro estacionado, com a luz do painel acessa, via seu rosto cansado e os olhos fechados, escutando alguma música, alguma boa música que fazia sua expressão relaxar um pouco. Compreendi no mesmo instante e, não havendo nada para fazer ali, simplesmente saí do caminho. Há um tipo de cumplicidade entre os solitários, que talvez seja das coisas mais sublimes que ainda existe neste mundo. Cada um sabe, e o verdadeiro solitário sabe mais ainda, na vulgaridade da solidão, os desejos não se engalfinham entre si, e nem o pudor rasteja, como por sobre a janela, simplesmente não há janelas, apenas a alma. E quando os olhos se abrem, é melhor que não haja ninguém ali, ao menos naquele momento, naquele momento em que se cria a ilusão de que a alma é impressa de volta no mundo. Cumplicidade neste caso, apenas comigo mesmo. Sonhando.

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