Dobraduras

Sei que em algum lugar, alguém que magoei muito hoje vive sua vida a distância como se nada além de poeira houvesse restado entre nós afinal. Também sei que, apenas em partes isso é verdade, mesmo que quase a totalidade, e como quase tudo no mundo, também este passado tem suas reverberações, e nos confins deste universo, ou talvez perdido em algum outro, como uma viajante do tempo brilha uma estrela solitária, que apenas em remotas teorias se fica sabendo.

Falando francamente, eu mais do que ela sofri, e teria todas as razões para manter a distância, e mesmo agradecer que todas as dobras e curvas possíveis tenham sido interpostas entre ela e agora, para que apenas em fantasias, receba algum sinal de sua existência.

Mas é diferente quando o sujeito é este que agora, e todavia agora, vos fala: um velho dobrador, de papeis e esquinas – e para quem vive entre sobreposições, entre estes sonhos e as verdades mais raras, as impossibilidades são musas, sem as quais a própria vida deixaria de fazer sentido. Mais hoje do que nunca, em nenhuma outra época isso se vez tão presente aqui. E nem um dia sequer se vai sem que visite novamente, com o coração amargo ou alegre, a dobra e o brilho daquela impossibilidade.

Talvez, desses desdobramentos as vezes surja algum origami, uma imagem, um poema, com abrir e fechar de portas, ou talvez apenas silêncio.

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