Indiferença

Um dia ela chegará, sonorizando um riso barato, embriagada da alegria fácil, a interrogar-te se não és tu a indiferença mesma, quando o que valorizas mais do que tudo, não chega sequer a ser ensaiado no mundo. E percebendo tua resistência, descerá sobre ti em torrentes de possibilidades envenenadas a despeito do que até então chamavas de orgulho. Chamfort, em seu leito de morte, desabafou sobre um mundo em que já não se vale mais a pena viver de tão indiferente, onde “o coração tem de endurecer-se ou partir-se”, segundo suas palavras. Sim, e aí estão os dois extremos, os dois corações da indiferença. Escondendo ou expondo, interessadamente ou desinteressadamente, vejo que há muitas sendas, sobretudo aquelas que começam com “poder” ou “não-poder”, encaminhando a alma por entre as ondas e o rebento, de onde não sobra muito além de indiferença.
 
I
 
Você sabe?
Há muita raiva em seu riso,
E nesta sombra espreguiça o gato,
Como espreita a pantera adiante,
Mais escura e afiada que a noite,
E todos os excetos da penumbra aguardam,
Sutil e lentamente,
A mão ao telefone,
A boca frouxa à palavra,
Deste riso às lágrimas,
Formando um mosaico de flamas inertes,
De alguma forma escapou o tempo,
Ou nunca houve tempo,
E as flamas multiformes condensam,
Banhando a porcelana em magma,
O uno consome a si mesmo;
 
II
 
Um ciclope se espreme no quarto,
Estreito e sufocante,
Pequena caixa de música na ponta do dedo,
Disputando espaço com a escassez do ar,
Resta pouca paciência,
E nalgum momento-molar,
Da caixa salta o palhaço,
Tauromaquia cômica,
Onde o cínico desperta e acena:
(Oprimindo último limite)
Ao menos, ao menos, e:
Sobrevivem as crianças!
A ranger de míseros dentes,
E grunhidos ao avesso,
Contorcendo e esmagando – por dentro,
Até quando, talvez:
Alguma brisa de inverno;
 
III
 
E daí?
Tempo perdido,
Como cinzas ao vento,
As ruinas do coração,
Partido(a) sem olhar,
Passos ecoam distantes,
Extenso caminho sem curvas,
Chuva disfarçando as lágrimas,
Diluindo o sangue vazado,
Lavada a terra do corpo vão,
Então, fina casca,
Cravejada do que fica,
Donde se vai,
Quando se for,
Opulentos diamantes etéreos,
Tragados, a exaustão;
 
IV
 
Nada,
Nada mais,
Seja o que for:
Machado ou sândalo,
Tempo ou espaço,
Sol ou chuva, –;
 
O sono vazio,
Revirando-se em releituras –
 
Indiferença.

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