Da aranha e das águas da lembrança/Flores Negras

O primeiro gole de lembrança me veio gelado descer nas fendas, tudo ainda era demasiado duro, diante dos efeitos do esquecimento, e esta rocha só poucos é moldada, não sem dor, pela infiltração das águas da lembrança de mim mesmo.

As aguas frias da lembrança já dilaceravam os rebentos, fazendo fluir nas veias uma inundação de gelo: forte anestesia, intenso torpor apático. Adentrei na letargia bucólica desses dias: cigarro após cigarro, e minha alma também pesou.  O mundo mergulhado em neblina, e a procura vã por algo, algum indicio que delineasse uma forma: uma saída pela fraca luz do dia que estava se pondo.  Só encontrei alguma paz, tempos depois, nos primeiros raios da aurora. Por quanto: me permiti aceitar o veneno em mim, para então aceitar também das lembranças o remédio.

Ela surgiu como um botão negro: adentro a escuridão noturna, e este nascimento representava a vitória da subtração sobre a soma: porque não dizer: O fracasso. E tudo recomeça tão logo chega ao fim, novamente ela, mais articulada do que deveria, com mais olhos do que poderia, caminhando nas paredes brancas a deixar um rastro de temor bem antes da cor ou segredos a contar. Tecendo as teias de ladra ocasional. Como seu caminhar furtivo, nas costas de qualquer firmamento. Andando por de trás do olhar, instruindo a superfície no rosto a formar expressão. Alimentando-se de pequenos sonhos livres, besouros e insetos, filtrados na mesma teia, de tempos em tempos recolhidos ao quarto no fundo de sua toca onde outrora batia algo, dentro no peito.

I
 
Em êxtase,
As negras flores desbotam, espalhando um odor nostálgico no ar:
Tempestade oculta rugindo na sombra noturna,
E a lua se abre numa clareira em meio à mata densa,
Tudo num só golpe se condensa em chamas multiformes,
E diante desta fogueira brilham abertamente meus olhos,
Farfalha ao redor em sussurros o toque delicado do vento nas folhas,
E em mim estronda um grito de potência,
Minha alma é um cometa que rasga em luz esta noite,
E não, não já se fez Sol: tudo está contido,
E, doravante, algo se precipita,
Astro da penumbra que brilha qual aço de punhal no escuro,
O sangue pulsa, os ossos rangem, os músculos enrijecidos,
Fazem o anuncio de guerra:
E logo adiante mil espíritos-vivos, como os fantasmas,
Deste campo de batalha.
 
 
II
 
Uma sombra navega no olhar,
De onde o olho não pudera ver,
E na lama, quase refeito, encontra o homem,
A aranha e o luar, como se não estivesse sempre lá,
A esmo, nos ermos: sempre mais uma vez,
Um conto arcaico de como: nós eramos,
E a luz, e a luz,
Projetando esta escuridão,
E seduz esquecer,
Lembrar, lembrar (em meio a toda nostalgia),
Despertar, ao som de mil portas abrindo,
Sem ter de se desculpar, aqui,
Ou temer a noite lá,
E no fundo ainda bate o coração,
Nas últimas sombras: o medo, o medo, o medo,
(Em meio a tantos medos),
Daí sair, n’algum: “não mais será”,
Às musas, às musas – navegar!

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