Desenhando no escuro

Nada nós é tão desenvolvido quanto nossa capacidade de desenhar em espaços vazios um motivo, especialmente quando algo importante não se faz mais tão presente quanto desejaríamos sempre direcionando o olhar a aquele lugar vazio como um ritual a um deus que a muito já morreu, mas segundo os indícios que primordialmente surgiram em nós como efeito daquela causa agora
ausente, todo o ser se inclina fronte a dádiva desta imaginação que torna possível um elo de miséria tão, e talvez ainda mais, vivo e fugaz quanto qualquer presença atual.
Assim se diz “eu era”, mas se pensa “eu sou”. Como se fosse covardia ceder ao esquecimento, como se este gênero estranho de coragem pudesse se tornar agora uma virtude precisamente quando seria exigido, pelo simples hábito de sempre fazê-lo, abandonar o abandonado e permitir a passividade, no sentido do futuro. Contudo, nada contém mais valor do que aquilo que corre sério risco de ser perdido, de estar errado, de demonstrar-se esquivo e assim seduzir o nosso olfato já quase obsoleto pelo cheiro daquilo que há para além da redoma de nossos típicos interesses, do estranho, do outro, do transversal que corta, do fio esticado, diante vida tediosa que já murmurava cautelosamente seu apreço pelo fim total de toda atividade e ausência de sentido.
Aí meu amigo, há uma arte secreta. Tão secreta que pouco se diz a respeito que já não mascare sua verdadeira aparência. E é necessário que se protejam, pelo menos disso, é preciso que protejam o próprio perigo de adquirir a mesma leveza de todo o resto. Mas como um corpo morto cavamos nossa própria cova, um dia isso há de apodrecer, e se não for enterrado fundo o suficiente há também de exalar o odor pútrido revelando assim a negligência com a qual, não o obscuro, mas, o que se mostra não foi conduzido conforme a exigência de seu modo de ser que se faz presente sem que se precise fazer apelo, e no fim do mergulho falte ar suficiente para voltar a superfície.

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