Para velhos amigos

Quando você é jovem e se vê como uma peça sobre um tabuleiro de um jogo que a muito já começou, e está constantemente sendo empurrado para lá e para cá, enfrentando situações que você mesmo não sabe o porquê ou para onde isso vai te levar, tudo que você almeja é um lugar distante disso onde você possa ir sem que mais uma vez a mão, ora visível ora invisível, do destino não mais te afete, e exerça sobre você sua força. Você quer na verdade algum tempo desprovido de oportunidade e oportunismo, que não tenha de ser aquela peça e que perder ou ganhar não faça mais sentido.

É engraçado como tudo ocorre, embora no fundo não haja nada mais trágico que as coisas que nos levam a criar um forte elo de amizade. Para cada um dos que estiveram lá ocorreu de modo diferente, e de repente você estava com aqueles a quem pôde chamar de pelo nome assim como eles chamavam a você pelo seu, mas todos estes nomes poderiam ser substituídos por um único “amigo”, pois estavam juntos num mesmo objetivo. Você nunca se lembra realmente como foi que tudo começou, apenas sabe que um dia começou a prestar atenção como quando o copo na sua mão estava tão vazio quanto seu bolso e a noite tinha sido breve, e muitas coisas ficaram por ser ditas e o sorriso estampado no rosto dá lugar a uma expressão frouxa de descontentamento. Você tinha muito em comum com eles ou será que havia se tornado comum? Não importava na verdade. Você e todos que ali estavam tinham suas historias e coisas sombrias demais para se falar de qualquer modo, como era o caso de estarem sempre sem modo algum. Com muitas coisas em comum, eles tanto quanto você estavam ali não para se esconderem dos medos e angustias, mas para dar um tempo de tudo. E muitas vezes, alguém tinha que desabafar e outras vezes todos riam das proezas ou erros de que alguém foi capaz, mesmo que apenas na imaginação.

 

A ilusão, a grande ilusão, onde você se perde com seus amigos para que ninguém mais possa achá-los era uma mesa num bar com qualquer nome, o lugar era o mesmo de sempre, e mesmo que se passasse muito tempo sem dizer nenhuma palavra sobre os problemas e dificuldades que a vida trouxe fora dali, um saberia reconhecer na face do outro com tanta facilidade, mas ao mesmo tempo com tanto respeito que era como se mesmo fora daquela utopia todos estivessem sempre unidos.

Você sabe que seus amigos conhecem mais do que tudo o peso da verdade, embora estivessem ali sempre a desafiando e rindo quanto maior fosse a dificuldade de conceber o desafio, então estava tudo bem que fosse da forma que estava sendo. Tudo estava claro, e se fora daquele pequeno país o mundo girasse em torno do comercio e jogos sobre o valor de cada coisa, ali se era antes estranho aquilo, e mesmo no mundo real havia uma certa dificuldade esculpida  em rugas e expressão esquivas no rosto daqueles amigos, e você percebia isso com nitidez.

 

Mas com o tempo, sem que a maioria deles sequer notasse um ou outro se distanciava de onde estávamos, e talvez até sumisse com o tempo aparecendo bem diferente do que um dia foi. Era cada vez mais constante a visita de estrangeiros na mesa, os inéditos bem como os que tornaram-se adeptos de outras pátrias, mas nada se disse a respeito, quem notou pelo menos não disse e você que notou a tudo e a todos, o jogo de importâncias que começava a nascer, via sem querer acreditar que algo ia se perdendo muito mais que a atenção ou a memória.

 

No final, hoje quero dizer, você consegue passar esse filme em câmera acelerada. Você estava lá, sentado, só acreditando com metade do rosto, rindo com a boca, mas concentrado com os olhos, até que toda a face ficou contraída e os olhos fixos num lugar vazio que o primeiro a sair deixou, e todos os outros foram saindo um após o outro, e a cada vez aqueles que saiam voltavam menos vezes, até um minuto final em que ninguém mais estava, apenas você, sozinho, como quando tudo começou. Embora você seguisse com sua vida, não sem sentir-se traído e praguejar todo tipo de ofensa contra os amigos que passaram a ser também inimigos, contudo se arrependesse de ter pensado e dito aquelas coisas pouco tempo depois, e sua atenção se tornara mais apurada para tudo quanto lhe diz respeito. Até que este dia chegasse e você pudesse dizer a si mesmo, mas como se todos estivessem presentes, na verdade tão ausentes como sempre, você sempre foi o estrangeiro naquela mesa, naquele país, e jamais foi capaz de seguir outro curso que não fosse o seu próprio, tudo que você pensava ver nós outros era um vestígio muito frágil daquilo que já estava se desfazendo, mas que em você se tornava sempre mais forte, te tornava mais forte. Você não esta feliz, esta calmo, tranqüilo, ri para si mesmo como quem viu a vida passando como a negligente admiração de uma piada, e acaba este texto dizendo: “Até mais, nos vemos por ai!”

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