A indissolúvel hipótese do ser

Meu ser que parecia indissolúvel, agora se dilui enquanto se abre na busca do você que se perpetua na breve imagem do ser “eu” sendo o seu eu e não o meu.

Uma visão quase que em paralaxe do humano me guia transversalmente pelos ângulos sempre agudos da existência humana. Poderia eu conjurar todas as formas possíveis de uma linguagem situada e coagi-las a meu favor, mas elas não seriam permissivas ao teu eu se não contivesse o meu conjunto universo alicerces sólidos e seguros dentro da cadeia muito estrita que descreve ninguém mais que não seja você, um ser único e, diante dessa perspectiva, inconcebível sem uma consideração suficiente de tua individualidade.

Parâmetros e estruturas que formam um desenho conjectural, que delimita estruturando os aspectos da tua existência. Aqui traço uma linha e diante da linha um lado se concebe como externo e o outro como interno e mesmo sem querer fazê-lo a linha segue em frente uma vez e depois desta vez a seguinte, descrevendo curvas, retas, paralelas e congruentes, as vezes suave, as vezes mais densa, que se preenche com todas as cores de ti, fazendo aos poucos dentro e fora, escuro e claro, detalhado e impreciso, até que por fim tenha em mãos todo teu ser como eu o percebo, mas não como ele realmente o é, mesmo que como ou quem ele seja também não esteja de todo modo evidente a ti mesmo, e em tudo que se diga haja supressão do sentido ou falta de alcance de uma vista turva. Quisera ainda saber mais e mais de ti, e sem que perceba jamais o saberei pois de quando em quando me sucede a quimera de que a cada vez que te olho, teu ser inteiro se inclina e faz a pose com a qual a força do hábito determina.

Entrementes, algo se revela, e o que antes era indiferente, indivisível, impossível de ser dominado pela reflexão restrita aos prolongamentos do interesse, subitamente, quase que num golpe de presas investidas contra o ponto de apoio de todas as conjecturas fomentadas até então, capacitado por um único momento de distração, onde o motivo deixou de ter sua razão de ser, põe a prova a crença por não poder mais estar vinculada ao encantamento que fazia de ti ilusão, e o desenho todo se desmancha, e com ela seus limites, e o colorido sem expressão de declives bruscos de dupla intenção.

Outro sentido se abre adiante, e com ele tantos outros. E o teu ser, para além da esfera do eu, se revela em tantos aspectos que tua individualidade quase desaparece diante de todos eles. Queria te ver, te ver por inteiro, mas em verdade encontrei uma estética que restringe a peculiaridade de teu rosto aos pontos de conversão lingüística que fazem do teu ser inerência e imanência, e do teu eu uma cumplicidade com estes pontos de referência, cegos e úteis ao mesmo tempo. Tu em si mesmo refletes algo que não se vê, e enquanto tal permanece vinculado a força inercial presente em todo hábito, mesmo do hábito de ser “eu”. Como poderia o individuo resistir a isso? No fundo, só encontrei a mim mesmo, dando nome a sombras, percorrendo sempre os mesmos caminhos e dobrando sempre as mesmas curvas, pior que tu em tua estrada, pois sei que uma busca se torna vazia quando, por não levar a lugar nenhum, se torna redundância. Deparo-me comigo mesmo e meu prazer de caminhar, a passos curtos, embora às vezes sejam longos como a soma de cada partícula entre eles. E preocupado com detalhes tão pequenos e ao mesmo tempo tão imensuráveis, que para situar o teu único “eu”, habitei toda uma cidade de “vocês”.

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