Trinta e tantos

(Imagem: Pintura de Suchitra Bhosle)

 
Já é o costume em ver,
de dentro de algo maior,
 
A pergunta persiste a dúvida,
Ramando a resposta em toda parte,
 
Uma segunda natureza,
Como a dor habita a carne,
O ser brota de sentir,
E derrama,
Alagando a vida.

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Sobre pássaros e silêncios

(Imagem: retirada do clipe de encerramento do anime Zankyou no Terror)

Cuidadosamente oblíquo,
O olhar se abre
Sobre a aguda-seriedade,
Estuando certo ter ouvido algo,
Dessas questões de maior importância,
 
Vai de perto a deriva do atento-ver em busca,
Alheio ao vento,
Enveredar nesse âmago,
Displicentemente,
Parece expor ao perigo,
Algo maior do que um destino reservado,
A fumaça e as flores dos desencontros,
 
Se nós que um dia aceitamos esse destino como dádiva,
E ainda ditosamente o seguimos com ledo desvario,
De vivenciar tudo de todos os jeitos possíveis,
Não nos encontramos se não ainda úmidos,
Como que recém-erguidos,
Do lodo fundo de cada miserável desfecho,
 
Conquanto dirão, o quão inútil e vão desperdício seja,
Muito antes diremos primeiro a nós próprios,
Como crianças-reencarnadas saídas mais uma vez do útero angustiado,
De olhos límpidos e infinitamente mais sensíveis aos cantos e silêncios,
Ninguém adivinharia quantas mães e pais, e mortes e vidas atrás,
 
Exatamente por isso, mais vastas solidões,
Que sabem os outros, do que vem a ser um limite,
Ante a nós que epifanicamente paramos antes as portas e as pontes,
Sentindo-as sempre mais uma vez e sentindo-as excessivamente,
Como grãos caídos à ampulheta de nosso ser finito movendo-se frementemente,
Junto aos felpos eletroestáticos do possível,
Pairamos em frente totalidade desse ocaso como ante a fronte de um deus,
Exigindo com preces em todas as línguas forjadas no cerne dessa tarefa,
Que algo, enfim, se manifeste,
 
Como poderia fazer diferente,
Se um dia me entregares uma tua metade,
Do que gentilmente a devolver,
Se não pertence a ti, também não a mim,
Ainda que contente nossos pedaços,
É livre no mundo,
 
Tal entrega ofender-nos-ia a ambos,
Tão lisonjeira a cura amainasse a dor,
Porque ainda que prostrados ante aos desesperos do exílio,
Em que nos apartamos de nós mesmos,
É inegável a essência de pássaro, soberanos de nossos próprios céus,
E seria preciso uma festa dos deuses,
E um cortejo de asas,
Para deixar vir a comunhão de nossos astros,
Sob um mesmo infinito celestial,
 
É quando inteiros que podemos dignamente,
Olhar um para o outro e simplesmente amar,
Pois o amor é o que dois inteiros juntam no caminho,
Para construir uma poética morada.

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Chuva no rosto

(Imagem: Pintura de Saeed Tavakkol)
último texto da série Meu amigo, dia desses começou a chover…

 
Como se explicam essas vezes em que se acorda já cansado? Nu e estirado no acaso. Pelo caminho, sempre atrasado, ocultar-se ao relento de nenhum olhar que o abrigue, além de quem possa reconhecê-lo como caminho, ainda que sob a luz consoladora e mórbida de outros astros. E parece ser essa a única ocupação garantida. Meus amigos, onde estão vocês que algum dia me fizeram questionar corajosamente se podíamos alcançar o possível de um sonho? Sim, o cansaço, pois ainda tento encontrar um lugar para o que seja digno e importante. Mas deitado nessas ruínas via estrelas novamente, e isso é tudo.
 
Dias depois, ainda sujo do tempestuoso ocaso, ferido intimamente da condição de ser finito. Ainda que pareça ofender profundamente ao cotidiano normativo das coisas, expor-se a luz do dia comum carregando consigo as marcas e os sulcos cavados no espírito, da dor e da alegria de ter reencontrado a chama viva da contenda da alma. E então, me escondo de todos no labirinto dessas erosões.
 
Tão de repente quanto vivenciei tudo o que descrevi impreciso: passei frequentemente a sonhar como a muito não acontecia, e revisitando as antigas ruínas. Sem deliberar ou perguntar, me dirigia aos bares e praças em que nos reuníamos. Passava horas meditando em silêncio, algumas vezes sob o abrigo de árvores frutíferas, mangueiras, sapotizeiros, castanheiras, e permanecendo ali, sob a goteira pesada da chuva que se acumulava nas folhas e galhos, embriagando do perfume doce e enjoado dessa mistura de terra úmida, frutos apodrecidos e de umas poucas flores remexidas, lembrava ter visto antigos amores em longas conversas em parques e madrugadas, de amar, e de ver tudo se desfazendo quase sempre por um egoísmo idiota, em outras caminhava sem direção perdido em pensamentos distantes. Ia a praia, estranhamente vazia nesta época do ano, e caminhava na areia molhada, serenamente assistindo a ressaca feroz  das ondas esfumando entre si, para enfim debulharem-se na areia, e quando chegavam a molhar os pés,  recebia-o como um desafio, pulava socando as ondas, esbravejando, caindo pra trás, atracado com o fantasma de uma grande peixe, armando a linha para anzóis cada vez mais afiados e sedutores: cada lugar me comovia com um sabor diferente e incompleto, enquanto o espanto me acompanhava por todo o caminho, com o único acesso em comum de ir sempre em direção ao Sol. Mesmo quando por vezes apenas encostava o rosto numa janela e frio gélido despertava do sonho enquanto via através da chuva batendo contra o vidro, as coisas sumindo e esmaecendo. Nessas horas uma súbita fraqueza me dominava, e era difícil segurar todo sentimento que enchia meu coração e transbordava: penso que é mesmo confuso esse mundo espelhado, onde as tristezas e as esperanças brincam com as imagens refletidas, de onde brotam fantasias de vibrações e possibilidades, e fantasmas através de distorções e ecos, esses deuses da chuva, que exigem da vida que o calor se mostre, dos distantes a proximidade, e dos estranhos a intimidade.
 
Através desse vento que às vezes me arrebata como uma brincadeira, desfolhando e embaralhando as coisas,  ventando sonhos para lembranças, como se reinventasse o passado, e lembranças para futuro, como se pudesse ver as coisas tornarem a ser mais um vez, e de quando venta um momento fechando os olhos e assanhando os cabelos, alisando meu rosto, tocando-a com dedos de chuvisco, levando a dormência embora, trazendo de volta o barro cru da vida, como se quisesse ver esse rosto de perto, do que fez, faz e fará, como se não o reconhecesse de longe, como se não estivesse de óculos
 
– É você mesmo! – ouvi-lo dizer.
 
E pode parecer ridículo, mas me sentia feliz e respondia em silêncio: sim sou eu mesmo!
 
Em verdade, de algum modo em meio a esses devaneios juvenis ia refazendo a costura de ser com os farrapos de ter sido, raspando as cores do esquecido para recomeçar a pintura em um novo quadro,
 
Tenho de ir devagar, para não me perder. De verdade, se me recordo bem parecia estarmos todos fugindo de algo com tanta pressa, que esquecíamos muito e reparávamos quase nada. Porque se parássemos, teríamos de conta de um imenso absurdo. Éramos jovens demais para saber, que mesmo agora ainda continuamos a ser. Tenho de ir devagar, diz-me a alma e o coração, e me deixar reparar o tempo…
 
Inesperadamente, me apanhei dia desses fitando minhas mãos, e as reli, como se faz com as linhas de um velho diário ou carta reencontrada de seu canto esquecido, e sim sou eu!
 
Eu mesmo, enquanto estia e ainda bebo da chuva, embebedando de misturas possíveis de sentimento, deixando a arritmia solta, o descompasso como guia, dos restos de infinito, tilintando em toda a parte, como um oráculo estilhaçado: gotas e poças, improvisando espelhos, e todas as luzes refletem em algo, e fazem delas brilhantes cristais; e interpenetram-se nesta ar-ritmia constante, de outra imagem, de outra claridade, com a indiscrição das coisas vertidas através dos cantos que não se vê, expondo a intimidade, me vejo de frente ao virar as costas para rir, ou de costas no choro no riso que dei para alguém sem poder, ou nos suspiros que sustentam esperanças mas aliviam fúrias, de amores que ainda sinto na ferida seca do laço cortado, tudo que finjo, calo ou minto, no desamparo do reflexo vivo, e todas as tristezas revelando seu canto de alegria.

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Cantos noturnos (sobre os rios das almas)

(Imagem: Pintura de Émile Breton, intitulada Marais au clair de lune)
Penúltimo texto da série: Meu amigo, dia desses começou a chover

 
I
 
Caminhei por todas as partes, buscando nos bares e ares noturnos, algo como internar-me no hospício dos vícios abafando o movimento perpétuo, da maquinaria das culpas e responsabilidades. E pouco presenciei mais do que misérias; Ouvi pacientemente da rotina, sobre suas ocupações cotidianas. Como se vestisse eu mesmo o traje das ocupações, almejando escapar a métrica de seus labirintos. Estive na moleira dos gritos de guerra, no peito fechado de suas iras, confortando ou instigando, nos canteiros de todos os ideais, assistindo-os lavarem suas magoas interna contra as sujeiras e erosões do tempo, perdendo o fio do devir, e a beleza de amadurecer.
 
Também a encontrei tentando alcançar sua própria imagem, e hoje não sei dizer se algum dia a amei, se existiu liberdade para isso e, para além, parece que sempre foi tarde demais…
 
Talvez tudo isso apenas estivesse entre as coisas sem cabimento da vida, mas entristeceu… imensamente. De repente, larguei tudo e a tristeza funda e cortante fez rasgar todos os planos e direções, sopraram fortemente as saudades, movendo tudo, morrendo tudo, debrucei-me nos umbrais de tudo o que não pude, descortinando a espessura de tudo o que podia, e a esperança jorrou e escorreu nas paredes dessa casa dos ventos, como pássaros perdidos, se espatifam contra a janela, alheios a transparência.
 
Depois a espera caiu como a chuva fina e longa riscando timidamente a escuridão, num longo lamento como brilho alvo de laminas ofertando o languido corte de uma velha honestidade mesmo diante da ríspida obscuridade; e se, entretanto, retas e agudas, parecendo o choro da tristeza cantando a longínqua lira do coração, confesso dignamente em silêncio onde fala a dor com mais sinceridade. Nos confins de tudo o que resta, desvelando a ausência nos rastros luminescentes da presença, encontrando o refúgio de uma ternura antiga entrevada na decadência. Eis uma vida inteira… e talvez na maior dela parte viajei como um vulto entre sombras, e quando o cansaço finalmente derramou a tinta da melancolia pintou as flores negras de dor e abandono. Abri a mala senti um aperto estrangular, as coisas estavam cheias de lembranças vazias.
 
E então o temor não mais obscureceu a ausência de quem e quando eu mesmo estivesse lá, liberando a dor das obrigações de sustentar um sentido. Esse delírio desceu como um vendaval de distâncias intocadas, escancarando todas as portas, varrendo para longe todas as proximidades, arrancando de mim as lágrimas e os risos, devastando folha a folha toda secura, rachadura a rachadura toda ruína. Toda vida se esvaziou, deixando a solidão estar na ventania da noite angustiada. Mudas estrelas sonhando o frio abismo das ondas, afogando o som num ruído vazio. Sob o cansaço infinito, o naufrágio.
 
Se existe algo além de corvos nas sombras da noite, devorando todas as proximidades. Diz, meu velho amigo, como era o desenho do mundo antes da distância? Do pouco que tenho a dizer sobre o passado, havia algo, havia música como só há quando se sente a melodia quase nos partir, e depois o silêncio vasto, o esquecido, apenas fragmentos de lembranças sem sentido, desde então tudo pareceu se mover rápido demais, decaindo na escuridão de um afastamento; já outono, ouvi o suspiro da terra, a folha seca dança, senti algo morrer, quase sem ser notado. Algo inominável é triste e inalcançável. Talvez entre rascunhos, se perdeu a palavra e o tempo a dizer.
 
Amigo, também o profundo cansaço tem seu ocaso, assim nesta hora tão tarde, larguei as resistências, deixando as ultimas flamas apagarem e escuro entrar, e vaguei pela treva seguindo a luz condutora da ausência estuando pelos flancos desconhecidos do horizonte adiante, não obstante sempre tão desiguais o fogo das paixões clareando apenas o mais próximo, no interior do jogo de sedução como pétalas no exílio da flor, que importa se vontades ou anseios, erguem o esforço como um filho pródigo. Cegas de que tudo quanto chega, arranca e deixa um pedaço quando vai. Mas também o medo é uma curiosidade, ainda corajosa em sua busca hesitante, de outro modo apenas permaneceria em silêncio. E quando desesperado busquei reaver as antigas proximidades, acordei para o fato de que o sentido havia se perdido, e então a busca cessou deixando nos braços da ausência, deixando que cansaço me arrebatasse.
 
II
 
Cai, como quem vira as costas para o mar violento, e embola num turbilhão de ímpetos atrozes não mais contidos na forma de um sentido. Mas certa noite, a taça cheia de escuro líquido, oferece a luz de um estranho brilho, lá fora se arvoram as ânsias, frio o vento, a arrefecer a pele da alma, como oscilantes lençóis nos quintais. Tendo da noite, os alvoroços que por dentro a angustia emudece, algo persiste, indo e voltando incessante e lentamente seduz ao regresso. Já estive nesse lugar, posso vê-lo em sutis pressentimentos, as calmas e as fúrias, girando em torno e adentrando aos pensamentos. Encontrando e desafiando por um longo tempo, os limites do que um dia pensei ser, olhando, cheirando, medindo, se lançando ao céu infinito, como uma prece desejante de algo mais, aos desconhecidos deuses, amando exasperadamente a mudança como uma criança se sente ínfima desequilibrando ao descobrir a imensidão da noite estrelada, e subitamente apega-se a terra sob seus pés sem deixar de olhar para o alto.
 
E desses pedaços conjuga-se o novo sentido de um antigo, com o vento a ferir de folhas os lagos imóveis, como o oloroso incenso da presença, perfuma de tudo o que um dia feriu a alma. Devagar pedaços e rasgos, tocam a face do silêncio, asserenando os medos, avarandando a noite, invadindo o quarto, entrando em meu coração, com uma alegria desconhecida.
 
Vejo-me em outras noites como essa, mirando abismos, chorando em segredo, gozando a alegria solitária do pertencimento, incendiando fantasias, medrando jamais ser outra vez reconhecido, cansado, e cansando do próprio cansaço…
 
Sentindo o peito expandir e quase estourar enquanto aquietado de ternura pisava macio nesse chão, ouvindo a respiração da amada adormecida no abraço, ou mergulhando no suor por horas a fio galgando o prazer de gozar adentro o calor devasso misturando nossas seivas…
 
E da tessitura desses ventos silentes, desde a palma aberta, vasculhando incertezas.
 
Sigo as vibrações até o coração pulsante arrebentar o peito de íntimas alegrias e tristezas, por súbitos deslocamentos, navegar as nuances até o estupor, erguer se para ouvir a música. A melodia noturna.
 
Tudo esteve longe e perdido, assim também eu deixei me ser um longe e perdido. Bebi a noite, tornando noite, deixando que o vento frio fosse o meu sussurro, o luar minha dor, e a escuridão o meu grito,
E ainda fermentando na boca, a saliva de todo sentimento compartilhado no amor,
E com mais afinco nas conversas de entre lábios roçando e o hálito túmido de ardor,
Ouço escoar a melíflua seiva, desposando o antigo romance de uma harmônia,
Ocultas sob o véu de uma dor gritante demais para não afugentar aos quebrantos o que delicado nas coisas da alma,
Fundida à noite densa, compõe a trama, desvelando se à nuance de sombras e ecos,
Enquanto o feixe de violetas recém-florescidas,
Embotam no mergulho azul profundo,
A noite em seus segredos,
Esse silêncio escoa através de veredas antigas,
Como linhas trançadas longamente na descoberta do efêmero,
Mas o fogo é da mesma fibra que a carne,
E arde queimando, a ferida da intimidade –,
Clareia, ainda provisoriamente, a fonte dos anseios;
Isso é apenas um momento a cada vez:
Em que o sangue flui na luz,
E o coração fala sua linguagem própria, o amor,
Como um novo destino.

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Teu canto…

(Imagem: Pintura de Ron Hicks)

Quando a voz de teu canto tocou a minha alma,
Ela viu o Sol, morrendo no horizonte de uma longa noite,
E continuou a seguir,
Como o coro das antigas tragédias,
Escoou entre deuses e mortais,
Entre os atos heroicos e a plateia,
Em nada se conteve,
Brincou com as resistências, como um cata-vento,
Cheirando a rosa dos ventos das etéreas correntes do meu céu,
E soube como o tempo retorceu as arvores,
Debicando num mergulho corajoso em meus abismos,
E depois, apenas voou fundo e mais longe,
Da ultima cova ao primeiro berço,
Abrindo vasta e firmemente as asas,
Como um grito de liberdade,
Ama os grilhões antes de amar ao destino,
Avançando as cordilheiras de sonhos sumidas na noite,
Voando raso pelas calmas planícies,
Onde fogo e sangue incendiavam a tarde,
Desviando de pedras entre as veredas estreitas,
Por onde é árduo seguir,
Escutando os mais difíceis e espessos silêncios,
Viu feridas abertas brilharem como as estrelas dessa noite tão longa,
E alegrias e tristezas do enigma de meu coração,
Então saiu de meus olhos deixando o esquecido em minhas mãos,
E o infinito estuário da demora de teus lábios nos meus.

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