Refazenda

Último da série de revisões, finalzinho do antigo Solidão

 
De vero,
Nada a dizer,
Tudo, ainda por fazer,
Tudo, neste esforço,
Re-(qualquer coisa),
De eclodir fora da casca,
Redesenhar,
Redescobrir,
Ressinigficar,
Poetizar no gesto,
De simbolizar a vida,
 
De vero, nada a dizer,
Como todo homem justo,
Mendigar sentido as coisas,
Vivenciar os punhais,
Sangrar o alvo da carne,
Cunhar a moeda de ser,
Sem escapatória,
E nada mais,
 
Perder-se na solidão,
De erguer-se mais uma vez,
De longe, afiado,
Cegamente, aproximo,
Meu jeito sem jeito,
De dar boas-vindas,
 
Além das escadarias,
Castanhas de seus cabelos,
Um beijo cai,
Suicidado de desejo,
Sem cair no seco,
Ficar molhado,
Um mergulho,
Sem medo,
De gozar dentro,
Do espirito,
De criar em comunhão,
 
Mais que isso não sei,
A própria vida é uma bagunça silenciosa,
Arrumo-me por aí, sozinho,
Abrindo caminho à escrita,
Me acho e me perco,
Canso, reluto em desistir,
Reluto em confiar.
Reluto em relutar.
E algo se faz, enfim.

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Fenomenologia e existência: uma ruína

Nota: Sei lá. Estava relendo o caderno do último ano do curso de Psicologia encontrei esse pequeno rascunho, acho que tentava encontrar uma ponte entre Hannah Arendt e Martin Heidegger, e entender o lugar da Clínica Fenomenológica.

O tempo que o artista dedica a contemplar uma obra, assemelha-se aquele em que qualquer pessoa contempla e produz/compreende sua existência.

Na verdade, variavelmente encontramos esse lugar o silêncio e a fala podem se encontrar, como uma ruína, no sentido de que uma ruína desdobra-se na temporalidade entre o que foi e o que virá:  não é mais e ainda é algo como uma casa, ainda não é e já é algo como um armazém. Nas lembranças, no entanto, a falas estão repletas de silêncio, e ao futurar os silêncios dizem algo, quer dizer, proximidades e distâncias se entrelaçam mais ou menos nítidas.

Uma ruína que visitamos para ter o privilégio de enterrar os mortos e parir os vivos: poder interpelar a finitude da existência, no entre da duração do que acaba e do que inicia.

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Joseph Lorusso

Em um quadro de cores febris

(Imagem: Pintura de Joseph Lorusso)

De perto a vida te quer,
Já no alto a tarde te pinta em um quadro de cores febris,
O calor te festeja,
Suspirando doce como vinho suave,
E bêbada de suspiros atrasa-te por uma alameda,
Teus intangíveis tocam as coisas do mundo,
O caminho que te alcança se fecha e se abre numa espiral,
Paternal, o vento te acaricia os cabelos,
A brisa amiga te instiga a rodar a saia do vestido,
E inspiram a beijar tua prole,
Tuas pequeninas paixões e sonhos,
Presas como frutas no pé na ventania de tua história,
Corações amarelas vermelhas queimadas,
De verões viajantes,
Apertando-te o peito.

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Pintura 24 por SUDOR

Uma garrafa envelhecida

Dedicado ao meu bom amigo Joabe, que sugeriu e participou indiretamente da construção.

 

Então ela vai embora,
Deixando as paredes em chamas, queimando tudo,
Depois cinzas e o silêncio dos quartos estranhamente vazios,
A salvo apenas a adega,
Destilados e fermentados, e,
Uma garrafa que guardou durante anos,
Algo que sobrou de uma festa,
Salvou de um beijo,
Guardou de uma foda meia boca,
Às vezes com uma dose,
De cada vez que não a abriu,
Pensando consigo mesmo,
“Na próxima vez será melhor”,
E aquele Vinho ou Whisky,
Guarda um pouco de tudo,
Tudo quanto se amou uma vez,
 
E no escuro dessas horas,
Sentado na noite, comendo os restos da semana,
Do mês ou dos anos, com uma fome,
Que comeu também a embriagues e o doce,
E o ardor, e a beleza,
 
Nas tardes horas,
Em que as portas, lentamente,
Depois de tantos anos,
Finalmente se fecham,
 
E a honestidade,
Deixando a noite entrar,
Apagando as luzes medrosas,
Dos olhos,
Abre a garrafa,
E sente o cheiro
de vinagre,
 
A coisa toda da podridão,
E farrapos, cacos,
Sacos vazios,
 
Lá fora a loucura dá risadas,
E taca uma pedra,
E mais,
Muito mais que uma vidraça se quebra,
Até que ela caia na cozinha,
 
Mais uma longa noite,
E amanhece,
A luz do sol bate no rosto,
Escorrendo como um líquido quente
Derramado na cara gelada,
Enchendo o vazio dos olhos,
 
Há algo lá fora, há algo lá fora,
A loucura por dentro taca outra pedra,
Abrindo a garrafa,
 
Caminhando pelos restos de uma vida,
Abre a porta mais uma vez,
Abrindo a garrafa,
E dá um gole quente,
Um gole ardente,
Toda revolta súbita de um pouco de alma. Continuar lendo “Uma garrafa envelhecida”